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Maternidade

A vida acontece fora dos manuais

Ninguém consegue seguir a cartilha 100% do tempo. Não somos robôs programados. Somos humanos. Cada um com sua história. Podemos saber de cor a bíblia, as leis de trânsito ou as recomendações da OMS. Ótimo que saibamos todas as informações, mas que tenhamos certeza de que não vamos passar a vida toda sem sair da linha mesmo que a gente tente.
 
Católicos vão fazer sexo antes do casamento e usar pílula, motoristas muito bem educados e conscientes vão passar no sinal vermelho se for meia noite e estiverem numa rua deserta e perigosa, mães e pais não vão conseguir dar conta de todas as orientações da OMS e da Sociedade Brasileira de Pediatra. Por um simples motivo: a vida não segue uma linha reta.
 
Não pretendo com este texto fazer propaganda de chupeta, cesárea desnecessária ou mamadeira. Propaganda é o que não falta pra vender esses produtos. Também não pretendo isentar ninguém das consequências de cada escolha. Mas pretendo, sem medo nenhum, eximir mulheres (principalmente!) da culpa.
 
Da culpa por ver um filho perdendo peso e dar mamadeira. Da culpa por ter ido pra uma cesárea desnecessária por não ter como bancar um parto humanizado. Da culpa por não conseguir preencher o prato da criança com cinco cores ou por ter desmamado antes dos 2 anos.
 
Pra quase tudo dá-se um jeito. Uma consultora de amamentação poderia ter ajudado a mãe que deu mamadeira ou aquela que preferiu desmamar. Um hospital público de boa qualidade (raridade!) e uma doula voluntária poderiam ter ajudado a mulher que teve seu filho via cirurgia. Uma nutricionista do posto de saúde com uma visão mais ampla e social poderia ajudar a montar um cardápio mais barato e saudável. Só que nem sempre a informação chega. Nem sempre temos apoio. Nem sempre há doula voluntária. Nem sempre o bom hospital público é perto da nossa casa. Nem sempre temos força pra correr atrás disso tudo. Porque, sim, correr atrás das alternativas que visam melhorar a qualidade de vida das crianças cansa. E muito.
 
Lembro da primeira vez que tentei dar chupeta a Artur. Ele mamava bem, mas não dormia bem. Dia e noite com um bebê no colo. Ele não aceitava o pai nem a avó. Era peito dia e noite. Resisti por um bom tempo: 2 meses. 2 meses e eu não conseguia levantar do sofá pra fazer xixi com ele grudado no mamá. 2 meses de dor na coluna. Nesse meio tempo, eu tentava dar a chupeta e ele não pegava. Eu, no fundo, dava graças porque realmente eu não queria oferecer bico artificial. Até que um dia meu marido conseguiu. Eu estava na cozinha e, quando cheguei na sala, meu bebê estava com a chupeta. Na mesma hora, chorei. De alívio, pela culpa, por achar feio um bebê tão lindo de chupeta. Lembrei de todos os textos que eu havia lido: desmame precoce, respiração bucal, dentes tortos, dificuldade na fala e mais uma infinidade de prejuízos. Tive que colocar todos esses textos no bolso e seguir em frente.
 
Limitei o uso: só na hora de dormir. Assim seguimos. Por sorte, ele continuou mamando. Continuou querendo meu colo. Continuou querendo dormir agarrado. Continuou o grudinho de sempre. Aquele pedaço de plástico não era páreo pra tudo o que eu representava pra ele. Nossa relação já estava consolidada desde o dia em que ele saiu de mim e veio pro meu peito. Aos 2 anos, tirei a chupeta de forma gentil. Assim como desmamei. Pra mim, os dois processos foram relativamente fáceis. Cada um tem uma experiência. Essa foi nossa história, que não merece ser confundida com falta de amor ou de querer o melhor pro bebê.
 
Histórias de vida não são lineares. São complexas, confusas, interrompidas por contratempos e obstáculos, fragmentadas e inacessíveis pra quem vê de fora. Histórias de vida são construídas por seres humanos e não robôs. Só quem vive sabe o que acontece nessas relações. Histórias de vida são labirintos que você segue sem saber direito onde vai sair, se vai conseguir chegar até o final ou se vai pedir socorro. Então, se você está no início do labirinto, não julgue quem está cansado de procurar a saída e opta pelo caminho mais fácil. Você não sabe o que vai acontecer quando você chegar no meio do caminho.

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