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Educação

Cantinho do Constrangimento… Oops! Do pensamento.

Hoje eu não estou aqui pra falar como mãe, mas como professora. Acho importante escrever sobre este assunto porque eu sei que muitos educadores dão uma passeada por aqui. Vamos conversar sobre ‘cantinho do castigo’ ou ‘cantinho do pensamento’?
 
Em dezessete anos de profissão, trabalhando com crianças, adolescentes e adultos, eu nunca utilizei essa técnica. Há quem chame de cantinho do pensamento. Há quem nomeie o tal cantinho de cantinho do castigo. Há um motivo pra que eu nunca tenha usado o tal cantinho: não há embasamento científico que prove que essa técnica funcione a longo prazo.
 
Uma criança muito pequena jamais vai utilizar o momento de sentar no ‘cantinho’ para refletir sobre o que ela fez de errado, sobre o que poderia ter feito de diferente e sobre como ela vai agir a partir daquele momento. Colocar uma criança pequena num cantinho para pensar é simplesmente adestrá-la e condicioná-la. Ela pode cumprir aquelas ordens por um tempo, mas são só ordens. Ordens vazias que não suscitam reflexão, não ensinam empatia nem convidam a criança a pensar.
 
O objetivo do ‘cantinho’ é seguir o que, na Psicologia, chamamos de reforço positivo (recompensa e estímulo por um bom comportamento – ex.: um aluno come tudo e, consequentemente, ganha um adesivo de uma carinha feliz, o que aumenta a probabilidade de que aquele comportamento (comer tudo) vai se repetir pra que o adesivo seja, novamente, um brinde) e reforço negativo (consequências aversivas – geram respostas emocionais colaterais, ansiedade, descargas de adrenalina e tensão e são, infelizmente, usadas na educação, como o cantinho do castigo). Estamos falando sobre Behavorismo, uma teoria que acredita no comportamento modelado por conexões S-R (estímulo-resposta). Skinner, idealizador do Behaviorismo, diz que o que fazemos é selecionado pelas consequências das nossas ações.
 
Ah, mas qual é o problema disso, Dany? Bem, nem o reforço positivo é aceitável na minha opinião. O aluno que comeu tudo e ganhou um adesivo como recompensa pode querer comer tudo sempre pra ganhar o adesivo, o que não é bom, porque a gente come quando tem fome e não para ganhar um adesivo. Comer para ganhar um adesivo pode fazer aflorar uma compulsão alimentar, por exemplo. E isso permeia todas as áreas da vida! O que é um reforço positivo pra um pode ser aversivo pro outro! Pessoas são únicas e diferentes, com suas particularidades e individualidades, gostos e preferências. Sobre os aversivos, é até uma questão ética não usá-los na educação. Quando você conversa com um aluno que está prestes a largar a escola, provavelmente esse aluno passou por uma série de reforços negativos (castigos, punições, corretivos, imposições) e, claro, ele não quer mais passar por isso e seu maior desejo é abandonar a escola, local de punições.
 
Essas técnicas não educam nem respeitam as crianças. Esses cantinhos não são para pensar ou refletir. São castigos aceitáveis por adultos que não toleram crianças. São castigos que provocam sofrimento, constrangimento e dor. São cantinhos controladores e ameaçadores. São cantinhos para adestrar, apenas.

E o que fazer, então? Já pensaram em sentar no chão e conversar com a criança? Já pensaram em procurar saber por que aquela criança está dando tanto trabalho? Já pensaram em perguntar o que está havendo à criança? Já pensaram que, de repente, quem está terrível é você e não a criança?

 

Cantinhos não são sustentáveis a longo prazo. Cantinhos não respeitam a infância. Cantinhos são muletas para adultos que não sabem lidar com crianças.

 

 
 

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