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Meus filhos e meus planos são incompatíveis

Há tempos não faço nada por mim. Vivo tentando sobreviver aos dias cansativos e cheios de afazeres, que, óbvio, não dou conta. Ontem levei o pequeno na praça pela manhã. Sol na ida, sol na volta. Calor! Voltamos. Dei banho, arrumei, dei almoço, levei pra escola, mas não sem antes deixar o almoço do mais velho arrumado pra quando ele chegasse. Na volta pra casa, parei na farmácia. Estava eu comprando coisas pra eles, nunca pra mim. Avistei, de longe, os nomes low poo. Caramba! É disso que todo mundo fala! Dizem que o cabelo fica lindão. Vou levar! Sem pesquisar nada, sem ler nada, sem saber de nada. Essas coisas, preciso fazer de supetão ou não faço. Trouxe o kit low poo!


Planejei pro dia seguinte:


  • trabalhar de manhã
  • voltar pra casa correndo e levar o caçula pra escola
  • voltar pra casa e escrever/ler/estudar
  • lavar meu cabelo com meu kit-novo-magia-puro-poder
  • pegar o mais velho na casa de um amigo, onde ele estaria fazendo um trabalho
  • passar na escola do mais novo e trazê-lo de volta pra casa
  • dar comida a todos
  • banho, escovar dentes e dormir


Todos os planos evaporaram como água no asfalto num dia muito quente.


Fui trabalhar e voltei correndo, como planejado. Assim que Artur me olhou de fora do carro, vi que tinha algo errado. Quando me abraçou, tive certeza. Estava febril, com a respiração difícil, olhos caídos. A conexão é tão intensa que só de olhar de longe a gente sabe, pelo olhar, que tem algo errado. Puxa! Tudo por água abaixo. Partimos pra emergência em vez de ir pra escola.


Meu despertador tinha tocado às 5:30. 12:30 e eu já estava com fome. Meu sono, cansaço e fome tinham que esperar. Emergência cheia. Crianças doentes por todo canto. Artur adormeceu no meu colo. Com o braço já dormente de segurar aquele mocinho pesado de três anos e meio, eu tirava forças da certeza de que não seria nada grave. Bolsas – minha e dele, filho grandão, carteirinha do plano de saúde, celular pra avisar à mãe e ao marido. Eu ali, sozinha, com um filho doente e os planos do dia indo por água abaixo.


Não eram planos tão importantes assim – lavar o cabelo, escrever, buscar os dois filhos – mas eram meus planos. E eu já havia deixado tantos pra trás. Tantos outros mais importantes. Será que nunca chega a minha vez? Eu sei, eu sei que passa rápido. Eu sei que meus filhos merecem meus cuidados e meu amor. Mas, e eu? E minhas expectativas? Não são tão importantes quanto? Tentava me apegar a algo que li por aí há algum tempo: “criança, prioridade absoluta”.


Medicado e sonolento, voltamos. No caminho, lembrei do mais velho! Meu deus do céu! Ele iria almoçar fora e fazer um trabalho na casa de um colega. Eu não sabia de mais nada: onde ele estava, se tinha almoçado, se já estava indo pra casa, se precisa de mim. Que mãe é essa que não consegue balancear os cuidados dos dois filhos? Ela, elazinha chegou: a culpa. A culpa não chega devagar. Ela chega metendo o pé na porta e estraçalhando todo o restinho de coração que sobrou. E se tivesse acontecido alguma coisa com o meu filho na rua e eu nem estivesse sabendo? O pensamento que vem é: eu não sirvo pra ser mãe de dois. Liguei pra ele. Estava tudo bem. Já tinha almoçado. Já estava com os colegas. Perguntei se ele precisava de mim na esperança de que ele não precisasse – olha o horror! – porque eu não saberia como equilibrar filho doente e dormindo, remédio pra comprar na farmácia, peso e calor. Ele estava bem. Não precisava de mim. Filho, desculpa, eu não consigo cuidar de todo mundo ao mesmo tempo.


Cheguei. Coloquei o pequeno adormecido na cama. Tirei minha roupa. Fui almoçar às 15h. Não tinha comido nada ainda. Nem tomei café da manhã. Agradeci por não ser nada sério com o pequeno. Agradeci pela autonomia do primogênito. Agradeci por ter braços fortes, mesmo que cansados, pra acolher tudo o que eu posso.


10 dias de antibiótico.
O kit novo pro cabelo vai ter que esperar mais um pouco.
Assim como o mestrado que ficou pela metade, os novos concursos que quero fazer, os projetos que quero tocar, a loja que tive que fechar, a fisioterapia que preciso fazer.


A maternidade é um eterno tirar o ego do centro.

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