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Bons Sonhos: uma opinião

Assisti ao novo programa do GNT sobre como fazer um bebê dormir, o Bons Sonhos. Confesso que não vi mais que um episódio e nem o episódio inteiro. No entanto, as cenas que vi foram, pra mim, muito chocantes. O episódio que assisti mostrava um bebê que acordava muitas vezes, o que é normal e esperado. Os pais cansados recorreram à “especialista do sono”. De acordo com o método do sono aplicado pela especialista, o bebê chora por muito tempo (vi um bebê chorando por 63 minutos). Os pais, ao ouvir o choro da criança, se desesperam. O pai, inclusive, confessa que, se a especialista não estivesse lá, ele não faria nada daquilo.

Antes de mais nada, preciso deixar claro que este texto não tem por objetivo julgar os pais, pois só quem tem uma criança que acorda muito à noite sabe como é difícil. Inclusive, é importante lembrar que a privação do sono foi uma das técnicas de tortura da CIA. Quando você espera por um bebê, não há como te preparar para passar por essa situação. É, de fato, torturante. A privação do sono pode causar confusão mental, raciocínio lento, problemas de memória e coordenação motora, queda da imunidade e, principalmente, irritabilidade. Logo, pode-se imaginar que os pais de um bebê que acorda muito na madrugada querem muito que a situação se resolva porque eles precisam estar saudáveis para cuidar desse bebê, que demanda atenção, paciência, amor e calma. Sendo assim, não podemos julgar os participantes do programa porque, como escrevi antes, a privação do sono é uma das situações mais penosas da mater/paternidade.

No entanto, é essencial que os pais de uma criança que acorda muito entendam por que e como se dá esse processo doloroso. Em primeiro lugar, é importante deixar claro que a maioria dos bebês acorda muito à noite. É verdade que quase ninguém confirma isso porque é muito difícil confessar que está passando por um momento difícil. Todos esperam de recém-pais que eles estejam radiantes e felizes. Não dão espaço para possíveis reclamações e queixas. Sabendo que a maioria dos bebês acorda, fica mais fácil aceitar que tudo bem o seu acordar também. Não há nada de anormal um bebê acordar à noite.

Entender por que um bebê acorda frequentemente talvez ajude a lidar melhor com a situação. Um bebê que acabou de sair do útero ainda não sabe diferenciar dia e noite. Não sabe que ele deve dormir em horários determinados . Tudo o que ele faz é instintivo: dormir, mamar, chorar. O bebê ainda não tem consciência de padrões e rotina. Tudo é aprendizado e, como qualquer aprendizado, dormir deve ser tratado de maneira respeitosa e sem violência, aos poucos, pacientemente. Paciência – aquela palavrinha mágica que falta aos pais de bebês que acordam muito.

Aprendizado está diretamente ligado a desenvolvimento. Um bebê desenvolve-se em diversas áreas de acordo com o seu ritmo: ele aprende a mamar, a sentar, a engatinhar, a andar. Ninguém obriga um bebê de 4 meses a sentar porque ele ainda não tem maturidade motora para sustentar o corpo. Obrigar um bebê a dormir sozinho em seu quarto é como obrigá-lo a andar quando ele ainda está na fase de engatinhar. É pular etapas, ultrapassar limites sem respeitar o desenvolvimento e maturidade física e emocional da criança. Dormir uma noite inteira sozinho exige uma maturidade neurológica que bebês ainda não têm. Bebês não nascem sabendo andar e não nascem sabendo dormir. Para um bebê, tudo é novo e todo aprendizado deve respeitar o desenvolvimento de acordo com a idade e a maturidade de cada criança. A maturidade neurológica para dormir uma noite inteira vem com o tempo.

Obrigar um adulto a dormir quando ele não está com sono é um ato autoritário. Há adultos que não conseguem dormir em um quarto escuro. Há outros que preferem dormir com companhia. Há quem goste de dormir com um bichinho de estimação. Porém, na nossa cultura, o bebê deve ficar isolado em seu quarto sem demandar presença, calor humano ou segurança. Desde o nascimento, ele é levado para longe de sua mãe e fica em um berçário afastado por muitas horas. O medo de que o bebê se apegue demais à mãe é uma ideia tão aterrorizante para a sociedade que inventaram que é bom acostumar no berço, é bom acostumar no carrinho, é bom acostumar no chiqueirinho, é bom acostumar em qualquer lugar longe da mãe. Percebam quando uma mãe fica muito com um bebê no colo. Logo dizem: vai mimar demais essa criança! Como se fosse pecado amar, acalentar e dar aconchego e segurança à quem amamos. Um bebê que passou nove meses dentro do útero de sua mãe não merece ser separado dela a qualquer custo por capricho de adultos que acostumaram-se com a falta de amor, com a solidão e com a insegurança. Até os dois anos, a criança ainda não tem consciência de que ela é um ser separado de sua mãe.

Voltando ao fato de que é difícil e torturante acordar a noite toda, eu insisto: pais e mães precisam de rede de apoio. É impossível atender um bebê a noite toda e acordar feliz arrumando a casa e pensando na preparação de uma deliciosa refeição. É preciso que alguém leve de presente uma quentinha a esses pais. É uma ótima ideia amigos se reunirem pra ajudar na faxina num sábado qualquer. Seria muito legal se um amigo se dispusesse a ficar com bebê por algumas horas enquanto a mãe dorme por umas duas horas numa manhã. Alguém que segure essa criança pra que um banho merecido e longo seja aproveitado por quem passou a noite acordando. O bebê não é o problema. O problema é que nos distanciamos da família e dos amigos. Vivemos sobrecarregados e solitários em nossos lares. Cada um por si. E criar uma criança só é uma das tarefas mais árduas do mundo. Já diz o ditado: “é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”. Rede de apoio é fundamental. Uma especialista do sono, bem, não tenho tanta certeza.

O que acontece no programa é bem parecido com a teoria de aprendizagem de Skinner. A palavra é comportamento. Incentiva-se a repetição mecânica para que o indivíduo seja adestrado, o que provavelmente levará à memorização de um comportamento. A aprendizagem ocorre basicamente através de estímulo-resposta. Em sua teoria, o Behaviorismo, o comportamento desejável é obtido pelo reforço (positivo ou negativo), como dar um biscoito ao cão que pega a bolinha. Desta forma, Skinner propõe uma aprendizagem que se baseia em treinamento e condicionamento, ignorando completamente as habilidades inatas do ser humano.

E como lidar com essa situação difícil? Em primeiro lugar, é preciso que a gente se desnude e comece a falar sobre a real mater/paternidade. Bebês choram. Bebês querem mamar o tempo todo. Bebês acordam muito. Bebês que fogem desse padrão são exceções. Ninguém será um pai ou uma mãe ruim se disser verdades que precisam ser ditas sobre criação de filhos. Bebês que dormem muito não são mais incríveis que os outros. Não há como comparar seres humanos. A comparação mina nossa segurança, nos desestabiliza, nos enfraquece. Bebês são diferentes uns dos outros. Uns vão dormir mais. Outros, menos. E tudo bem. Só há uma coisa que eu posso lhe dar certeza: eles não vão acordar de hora em hora pra sempre. NÃO VÃO. Há tempo para tudo. E vai chegar a hora em que eles vão dormir sozinhos porque chegaram muito cansados da escola, na cama deles. E você terá que escovar os dentes deles com eles ainda dormindo e colocar uma roupinha aos trancos e barrancos naquele corpinho molengo adormecido porque estarão cansados e, principalmente, porque já estarão neurologicamente amadurecidos para pegarem no sono sozinhos e dormirem uma noite completa.

Calma. Respira. Vai passar. 

Assinado: Dany, mãe insone por 2 anos e meio, que acordou a cada meia hora durante esse tempo. Sim, Artur dorme a noite toda e pega no sono rapidamente. Mágica? Não. O tempo. Ele cura tudo. 

Referências:

GUTMAN, Laura. A maternidade e o encontro com a própria sombra. 5ª edição. Rio de Janeiro: Bestseller, 2013.

OLIVEIRA, Thelma B. O livro da maternagem: para mães, pais, cuidadores e doulas. São Paulo: Schoba, 2012.

PILLET, Nelson. Psicologia Educacional. 17ª ed. Ática. São Paulo, SP.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Priva%C3%A7%C3%A3o_de_sono (acessado em 20 de março de 2017)

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141210_eua_cia_tortura_hb (acessado em 20 de março de 2017)

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