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Sobre filhos e memórias

Um dos meus maiores medos é esquecer de tudo. Esquecer das pessoas, das vozes, dos lugares, dos cheiros. Talvez por isso eu tente registrar meus momentos em blogs, fotos e vídeos. Gosto de manter registros. Guardo cartas antigas de amigas do ginásio. Guardo algumas peças de quando meus filhos eram bebês. Guardo, acima de tudo, memórias. Isso tem uma explicação, eu sei. Desde que perdi meu pai aos 10 anos, eu venho tentando guardar o que é importante pra mim. Acho que fiquei mal depois que esqueci da voz dele. Eu não lembro mais da voz do meu pai. Lembro do jeito, lembro de algumas conversas, do jeito de se vestir. Da voz, não. E isso me toca fundo na alma. Chega a doer de tanta saudade e tanto esquecimento. 
Também não gosto de mudanças. Não gostei, na época, de me mudar. Não gosto de trocar móveis de lugar. Não gosto de mudanças radicais. Talvez pra economizar espaço na memória. Com tantas mudanças, fica mais difícil guardar lembranças, eu acho. Gosto de rotina, gosto de fazer muitas vezes as mesmas coisas, gosto dos mesmos programas, bandas, lugares. Pode parecer uma chatice, mas eu gosto assim. 
Dos filhos, gosto de tirar fotos. Muitas. Gosto de fazer vídeos. Gosto de ver os vídeos dezenas de vezes. Não quero perder nada deles. Porque eu sei que uma hora vai acabar. Uma hora eles vão criar asas e vão voar por aí. Disso, não tenho medo, mas já sinto saudade. Já sinto saudade de Caio pequeno, menorzinho, com aquele cabelo arrumadinho penteado por mim. Sinto saudade de arrumar a merenda dele. Sinto saudade do quartinho com ar de criança. A adolescência tá chegando devagar e, como a infância, também quero guardar na memória. É por isso que talvez eu não me incomode com coisas pequenas. Não me importo em ter meu quarto invadido pelos dois filhos com medo da noite escura. Um dia eu vou sentir saudade disso. 
Artur tá crescendo rápido demais. Peço a ele pra fazer mil vezes as mesmas gracinhas, as danças, as caretas. Quero tirar foto da gracinha, da molequice, da doçura que é ser uma criança de 2 anos. Será que vou esquecer do cheiro bom dele? Não tem coisa melhor que cheiro de filho. Queria poder eternizar as risadas, olhares, a corrida pelo corredor pra me abraçar. Queria ter uma câmera acoplada no olhar pra pegar cada movimento. Como não é possível, sigo guardando as lembranças na minha mente e no coração. 
Quando eu estiver velhinha, vou ter todo tempo do mundo pra dormir, ler e descansar. É por isso que, apesar de reclamar da vida corrida e do cansaço, no fundo, eu amo ver os dois crescendo e sinto prazer em poder colecionar coisas boas ao lado deles. Será que vou lembrar da pipoca que faço pra eles à tarde? Do cheiro do bolo de banana invadindo a casa? Dos filmes que assistimos juntos? Da casa tomada por brinquedos, livros e mochila pelo chão? Um dia não vai ter mais nada disso. Não vai ter farelo de biscoito pelo chão. Não vai ter sofá manchado de suco. Não vai ter parede rabiscada. Vai ter silêncio. E eu sei que vou sentir falta do barulho deles, dos gritos, do “manhêêê”, do “mamãe, mamãe!”. Não sei se vou saber lidar com o silêncio, com a falta que eles vão me fazer, com a saudade que vai apertar. A gente não sabe quanto tempo temos com as pessoas que amamos. Aprendi isso da pior maneira possível. Então, quero seguir em paz com meus dias com eles. Fazendo o que sempre faço: botando a comida no prato dos dois, dando abraços, broncas e afagos. Porque, um dia, vão ficar só as lembranças. 
Foto: Mari Hart
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