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A humanização precisa chegar na periferia

Ontem foi a estreia do filme O Renascimento do Parto na TV. Sem dúvidas, o documentário é de fundamental importância pro empoderamento feminino e para a população entender do que estamos falando quando o assunto é nascimento respeitoso. O filme desperta variados sentimentos no telespectador. Sentimentos que vão desde amor e gratidão à dor até à profunda reflexão sobre a importância do nascer. O filme choca. Gera indignação. Toca na ferida. É um filme necessário e lindamente preparado. 
O problema é que, ao assistir ao filme, eu só vi mulheres de classe média parindo. As mulheres pobres que apareceram são de algum interior que parem em casa com parteiras da comunidade, o que é maravilhoso se o desfecho for sempre positivo. Essas mulheres, no entanto, não têm a possibilidade de transferência pra hospital caso aconteça alguma emergência. Simplesmente porque não há hospitais por perto. No filme, a mulher empoderada e que corre atrás do seu parto é classe média e dispõe de recursos financeiros pra bancar sua escolha. É claro que isso não minimiza sua força ao fugir do sistema obstétrico vigente pra conseguir parir respeitosamente. 
Mas, vamos falar de falta de recursos? Vamos falar de mulheres pobres, que são maioria nesse Brasil? Vamos sair dos condomínios fechados e falar sobre mulheres da favela? Ao tocar no assunto falta de dinheiro, as sugestões são as mais variadas: fazer rifa pro parto, economizar no enxoval, não fazer festa cara de 1 ano, vender o carro, parcelar. Todas essas opções são válidas, sim. Eu mesma deixei o consumismo de lado e economizei no enxoval porque eu preferi valorizar algo mais importante: o nascimento do meu filho. Porém, eu estou falando de mulheres que não têm escolha nenhuma. 
Mulheres que não têm carro pra vender.
Mulheres que não vão fazer festa de 1 ano. 
Mulheres que não vão poder pagar as parcelas do parto.
Mulheres que não têm condições de fazer um enxoval básico.
Mulheres que não podem fazer rifa porque não têm o que rifar e as pessoas de sua convivência também são duras e não vão comprar rifa pra parto. 
Sim, precisamos falar sobre isso e não é porque não sabemos como resolver a situação que não vamos falar sobre. Precisamos conversar abertamente sobre esse assunto. E falar abertamente é falar em valores também. Médicos do plano de saúde não acompanham partos humanizados. Se toparem um parto normal, vai ser aquele parto frank. No RJ, dá pra contar nos dedos da mão os médicos humanizados e os valores são altos. Há partos que custam R$ 10.000,00. É uma média, claro, mas gira em torno disso sim. Os médicos precisam receber, precisam de valorização e a questão não é quanto o médico cobra. A questão é que precisamos admitir que nem tudo mundo pode pagar. Honestamente, você acha que uma mulher da periferia que tem dificuldades até de pagar a passagem do ônibus no dia a dia consegue 10 mil pra pagar seu parto? Sejamos realistas. Essas mulheres estão tentando sobreviver com um salário mínimo.
Quando se fala em falta de dinheiro, há outra sugestão: uma maternidade pública que é referência em parto no RJ. O problema é que ela é a ÚNICA opção. Se você der sorte de morar perto, ótimo. Se não morar perto, o deslocamento pode ser um empecilho. Não são todas as famílias da periferia que têm um carro e muito menos podem pagar táxi. Pegar ônibus durante o trabalho tá longe de ser humanizado se levarmos em consideração as péssimas condições do transporte público da nossa cidade. Então, há uma opção de maternidade pública, sim, mas ela é a única na cidade e nem sempre possível. 
Temos que tomar cuidado quando proferimos frases como “quem quer, consegue” ou “pra parir, tem que querer muito”. É verdade que é preciso querer, mas é preciso também ter dinheiro ou, pelo menos, opções. Se ignorarmos a dificuldade das mulheres pobres e continuarmos dizendo que “não pariu porque não correu atrás”, vamos cair naquele discurso falacioso da meritocracia e reforçarmos que quem pariu merece tal vantagem porque se esforçou o bastante (e teve dinheiro) e quem não pariu não se esforçou o bastante. É o mesmo que dizer que o menino da periferia que estudou em escola pública do bairro a vida inteira tem as mesmas chances no ENEM que um menino rico que estudou a vida toda no Santo Agostinho. Precisamos admitir que nem todas têm as mesmas chances. 
Não adianta as ativistas ficarem na defensiva quando esse assunto surgir. É preciso encarar de frente. Eu sei que tem gente trabalhando por um SUS que dá certo, mas ainda tá longe de ser suficiente. Temos que abrir os olhos e, da mesma forma que abrimos o coração pra humanização, temos que abrir o coração também para entender as mulheres que de fato não podem pagar um parto. Quando uma mulher da favela reza por uma cesariana, ela não está fugindo do parto. Ela está fugindo da violência obstétrica que é uma verdade nas maternidades. Ignorar esse fato é ignorar mulheres. O parto humanizado ainda é elitizado. Você até pode bater o pé e dizer que não é elite porque se esforçou muito pra pagar a equipe, mas eu te digo: você faz parte da classe média que pode pagar um parto respeitoso. E você não é todo mundo. Você não representa a maioria das mulheres que não pode desviar nem R$ 50,00 da renda pra pagar o parto. Isso não é uma crítica ao movimento, que é lindo e do qual eu faço parte. Isso é um convite pra pensarmos juntas no que pode ser feito pra mudarmos esse quadro. Convencer uma mulher branca, classe média e dona de escolhas a parir é mais fácil que resolver o problema da mulher da periferia. O que podemos fazer?
Obs.: Procurei uma imagem que representa a mulher negra da periferia parindo e não encontrei. 
Só imagens com mulheres brancas.
      

Comentários

comments

6 comments
  1. Simone Thorpe Nunes Pernambuco

    Dany, texto perfeito; porém, eu complementaria a frase "Médicos do plano de saúde não acompanham partos humanizados" com "e a recíproca é verdadeira". Porque médicos humanizados também não querem aceitar plano de saúde.

  2. Andressa Cristiane Cunha

    Perfeito!!! Realmente, é preciso levar adiante a humanização, todos tem que ter acesso. Aqui em SC, por exemplo, em poucas cidades ainda é possível parir dignamente pelo particular, quanto mais pelo SUS. Vamos em frente nessa luta!!1

  3. Paula Inara R Melo

    Dani, um dos principais motivos para levar o Ishtar, grupo de Apoio ao Parto para a Baixada Fluminense (ishtar-baixada.blogspot.com.br) foi justamente a necessidade de ampliar o acesso á informação das mulheres pobres, moradoras de locais na Baixada onde a rede de saúde é ruim, os serviços péssimos e o pré natal pode ser praticamente uma dádiva. É uma luta diária, mas felizmente temos tido algumas vitórias, o número de mulheres que frequentam o grupo começa a aumentar e essas mulheres estão indo mais informadas e buscam se preparar para parir com respeito. O nosso objetivo claro é lutar contra um sistema que oprime a todas, mas oprime mais indiscutivelmente àquelas que nem mesmo sabem que podem ter opções para não sofrerem violência na hora do parto. Claro que não conseguiremos mudar toda uma realidade da noite para o dia, mas eu como Doula e que foi uma mulher negra grávida moradora da Baixada e pobre sei exatamente do que você está falando e concordo integralmente com suas palavras. Humanização não é para aqueles que podem pagar, humanização é um direito de todas. E por isso lutamos todos os dias dentro e fora do grupo. Parabéns pelo blog

  4. Renata A.

    Sim, eu militei durante muito tempo quando estava grávida e com a minha filha pequena (lá se vão dez anos) e só consegui porque consegui ser aceita na casa de parto de Realengo. Caso contrário, teria tido um parto normal mais padrão com um médico do plano de saúde que me disse que eu não iria aguentar parir sem anestesia. E ainda assim, pedindo meu pai para arcar com o parto, já que o plano ainda estava na carência.

    E aí há outras questões: o pessoal que tenta sempre fechar a casa. A casa que só aceita mulheres da região (provavelmente por uma questão de fluxo). Então, eu acho que o movimento pelo parto humanizado precisa pensar em duas vertentes: a primeira, falar pra essa mulher que tem opção, tem como se virar, que cogita uma cesárea eletiva por desconhecimento, medo ou questões socioeconômicas (já que o modelo de parto normal que a gente vê nos hospitais públicos são horripilantes; parece o tipo de coisa que só pobres precisam se sujeitar) e, o que é muito mais profundo, o que lida com uma violência muito maior, brigar por um atendimento humanizado no SUS.

    Eu achei bem interessante o alarmismo dos depoimentos (todos respeitáveis, conheço todos) a respeito de não nascermos mais de maneira natural. E me perguntei, quem não vai mais nascer de parto normal? Porque na periferia se nasce muito e todos os dias e, muitas vezes, de maneira violenta, Muito mais violenta que nas cesáreas eletivas. É com choro, com gente amarrada na cama, com palavras agressivas. Então são duas questões aí e acho urgente que o movimento pró-parto natural comece a buscar dialogar com mulheres da periferia, médicos e enfermeiros do SUS (sei que muitos trabalham no SUS, mas não é o suficiente e não vejo o debate chegar na periferia de fato), para que se compre essa briga.

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