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Relato de parto (VBAC)

Quando engravidei de Artur, comecei a ler tudo sobre gestação, parto, amamentação e tudo mais relacionado à maternidade. Não sei bem quando e como tive contato com informação sobre partos humanizados. Eu só sabia, antes de tomar ciência sobre as possíveis vias de nascimento, que eu queria um parto normal. Eu, que já tinha passado por uma cesárea há dez anos, não queria mais passar por outra cirurgia. Cirurgia envolve riscos, uma recuperação mais lenta e, no caso da cesárea, traz mais malefícios pra mãe e pro bebê do que um parto normal. 
Comecei a me informar e, nesse processo de empoderamento, conheci a Aline (doula). Conversamos e, mesmo ela não sendo de Niterói, gostei dela. Tinha certeza de que ela me ajudaria nesse processo. Aline é doula, ativista do parto humanizado e ama o que faz. Já me ganhou! Meu marido achou bastante esquisito contar com uma doula. Achou que era coisa de hippie, de rico, de gente fresca… Mas, bem, o parto era meu, o corpo era meu. Então, nada mais justo que eu escolher os profissionais que me assistiriam. 
Aline (doula) e Renato (meu marido)
Até então, eu fazia pré-natal com uma médica do plano de saúde. Boazinha, gente fina, mas cesarista. Toda vez que eu queria conversar sobre parto, ela dizia que faria parto normal se tudo estivesse bem e que esperaria até 40 semanas (mas uma gestação pode ir até 42!). Estava na cara que não rolaria com ela . Eu não ia conseguir parir. Em algum momento, achei que eu pudesse convencê-la, ir contra o sistema, enfim… Depois, me conscientizei de que eu não bancaria contestá-la se ela me dissesse na hora do parto, por exemplo, que meu bebê corria algum risco. Não, eu não bancaria isso. Na hora H, eu amarelaria. Eu certamente pararia no centro cirúrgico. O jeito era mudar de médico. 
Foi aí que fiquei sabendo do Marcos, obstetra humanizado, que respeita a mulher e o bebê na hora mais importante de suas vidas. Demorei bastante tempo pra marcar consulta com ele. Mudar de médico envolvia dinheiro e disposição. Ele atende em Copacabana – longe da minha casa – e não aceita nenhum plano de saúde. Conversei com meu marido e resolvemos bancar essa escolha. 
Marcos, o GO mais paciente que já conheci
Quando eu estava com 36 semanas (sim, mudei de GO na reta final!), tive minha primeira consulta com o Marcos. Senti confiança e me enchi de esperança. Esperança, pois a vida toda eu ouvi que uma vez cesárea, sempre cesárea. Ouvi que parto normal era difícil. Ouvi que a mulher sofre no parto. Ouvi que cesárea é bom, bonito e barato. Mas, ali, na frente dele, eu tive esperança, quase certeza de que eu conseguiria parir. Foram quase duas horas de consulta, conversa e troca de ideias. 
Bom, doula e GO escolhidos. Era a hora de esperar Artur dar sinal. De tanto tentar me convencer que o parto pode durar até 42 semanas, eu acreditava que eu chegaria até lá, mas, com 39 semanas, Artur resolveu querer conhecer esse mundão. Minha data provável de parto era 14 de setembro. 
07 de setembro
Levei Caio à casa de um amigo pra fazer trabalho. Passei a tarde com outras mães e com as crianças. Não sentia nada. Tudo tranquilo. No final da tarde, cheguei em casa e comecei a sentir contrações. Elas eram perfeitamente suportáveis. Achei que fossem contrações de treinamento e não dei muita bola. Quando a noite caiu, as contrações ficaram mais intensas. Fiquei assustada e achei que Artur nasceria no feriado. Resolvi pedir a Renato pra ligar pra minha mãe. Precisava que ela ficasse com Caio, meu filho mais velho, caso eu tivesse que ir pro hospital. Minha mãe chegou na minha casa quase certa de que o neto fosse nascer naquele dia. Liguei pra Aline e ela me recomendou descansar. Foi o que eu tentei fazer, mas não consegui. Era um misto de dor e nervosismo. Passei a noite toda sentindo contrações e comecei a perder o tampão. Com Renato o tempo todo ao meu lado, ficou mais fácil. 
08 de setembro
A manhã chegou e eu continuava sentindo contrações. Agora, mais fortes, mais intensas. Resolvi ligar pro Marcos. As contrações tinham um espaço de 8, 10 minutos entre uma e outra. Não era trabalho de parto (TP) ainda. Eu não podia acreditar. Eram pródromos. O que eu não sabia era que os pródromos poderiam ser tão doloridos. E eram! Mas eu tinha certeza de que logo o TP engrenaria. Resolvi ir à emergência perto de casa. Fui e nada de dilatação. Murchei, fiquei triste mesmo. Achei que com contrações tão fortes, eu já teria alguma dilatação. Passei essa noite também em claro. Renato comigo o tempo todo. Ele já estava preocupado, mas me apoiando. Contava o intervalo das contrações e anotava tudo cuidadosamente. Caio, vez ou outra, ia lá no quarto me ver. 
09 de setembro
As pessoas já estavam sabendo que eu estava tendo contrações. Ligavam, preocupavam-se, mas acabavam não me ajudando em nada contando causos de bebês e mães que morreram ou passaram perrengue em parto normal. É, as pessoas costumam culpar parto normal por tudo embora os números digam que parto normal é mais seguro que cesárea. A essa altura, eu já estava sem paciência. Eu sabia que tinha que me concentrar, me conectar com o bebê e não focar na dor, mas, pra mim, era impossível. Quando a contração vinha, eu tentava focar na respiração e pensar que aquela contração trazia meu bebê pra mais perto de mim, que todas aquelas contrações eram necessárias e que elas estavam ajudando meu bebê a nascer. Eu já implorava ao meu bebê que viesse logo. “Artur, vem logo pro colinho da mamãe, meu filhote. Mamãe tá te esperando”. Eu não estava mais aguentando. Eu não sou uma pessoas muito resistente à dor e esse já era o terceiro dia em pródromos. No entanto, resolvi não ligar pro Marcos nem pra Aline. Era o meu corpo trabalhando. Eu e meu bebê tínhamos que trabalhar juntos. Não havia nada, naquele momento, que os dois pudessem fazer por mim. Era um momento nosso, meu e de Artur. 
10 de setembro
Nesse dia, meu melhor amigo era o chuveiro. O banho quente aliviava a dor. Renato ficava comigo no box um tempão… Melhorava mesmo. Eu conseguia conversar algumas poucas coisas e conseguia descansar também. Numa dessas conversas, lembro dele dizendo que eu já tinha chegado até ali, que era pra eu ficar firme, continuar e que tudo daria certo. Fiquei cheia de orgulho do meu marido. Logo ele, que achava perigoso parto normal, que não levava a sério esse assunto. Foi o gás que eu precisava pra aguentar. No dia seguinte, era aniversário dele e eu desejei, em algum momento, fazer uma torta de limão que ele gosta. Louca eu. Eu mal conseguia ficar em pé, mal conseguia respirar, não havia mais posição confortável. 
Ele, meu marido

11 de setembro
Não lembro que horas Renato ligou pro Marcos e pra Aline. Aliás, no dia anterior, ele tinha falado com os dois, mas eu não lembro quantas vezes, o que falaram nem que horas aconteceram as ligações. Só sei que encontramos Marcos e Aline na Perinatal às 5h da manhã. Eu estava com cara de poucos amigos, meio descabelada e quase certa de pedir uma cirurgia. Sim, eu pensei em fazer cesárea. Ele me examinou e eu tinha 3 cm de dilatação. Chorei quando ele falou. Chorei porque achei que eu não fosse dilatar nunca! Eu estava desde o dia 07 tendo contrações e sem dilatação. Chorei de emoção porque eu teria o parto que eu tinha planejado. O Marcos sugeriu que eu voltasse pra casa. Se eu ficasse no hospital com tão pouco de dilatação, eu provavelmente passaria por intervenções. Eu e Renato concordamos e voltamos pra casa. 
As contrações só foram aumentando de intensidade e eu já estava no meu limite. Eu não queria sentir mais nada. Eu queria que me fizessem parar de sentir aquela dor. Eu desejei ser uma mãezinha sem informação, podem me crucificar. Falei com Renato que eu não queria mais aquilo. Ele ligou pro Marcos e voltamos pra maternidade às 15h. 
No carro, eu já estava fora de mim. Lembro vagamente que Renato se perdeu em algum momento e me pediu desculpas. Chegando ao hospital, vi Aline. Ela me abraçou e eu chorei. Chorei pela dor e por desejar uma cirurgia. Não era possível que eu quisesse entrar na faca. Eu não achei que eu fosse querer, mas quis. 
Como num passe de mágica, as contrações ganharam outro ritmo no hospital. Pra minha tristeza, um ritmo mais lento. Tomei um banho demorado, comi e esperei o TP engrenar. Um funcionário do hospital foi me “arrumar”: roupinha de hospital, touca, meias. Não lembro se foi Aline ou Marcos que me disse pra ficar à vontade e tirar aquela roupa. Pra quem teria parto normal, aquela roupa não fazia sentido. Fiquei de bustiê e rodeada de pessoas que me apoiavam. As coisas, a partir daí, pareciam que dariam certo. 
O problema era que eu já estava cansada demais. Com tanta dor, na hora que fui apresentada à anestesista, eu quis a droga! Quis, gente. Pedi, implorei. Ela estava lá pra qualquer emergência. Não estava nos meus planos pedir analgesia, mas eu quis. Nesse momento, eu entrei no ciclo medo-tensão-dor. E quando a gente entra nesse ciclo, é difícil sair. Dei piti e depois morri de vergonha, rs. Pedia anestesia, pedia cesárea. Ainda bem que escolhi a equipe certa! Tenho certeza que qualquer outra equipe teria me operado. Marcos me pedia calma. Aline e Renato também tentavam me acalmar. 
Por fim, recebi analgesia. Eu me transformei. Consegui até sorrir. Claro, era o efeito da droga. Fui pra bola e me mexi pra ajudar meu bebê a nascer. Colocaram Pearl Jam pra tocar, minha banda queridinha. De repente, eu tinha 9 cm de dilatação. Se eu conseguisse pular, pularia. O grande problema da analgesia é que você não sabe o momento de empurrar. Eu conseguia sentir as contrações sem dor e ficava meio na dúvida sobre quando fazer força. Em nenhum momento o Marcos me mandou fazer força. Eu, mesmo com anestesia, sentia que estava no controle. Fiz força na hora que quis, como quis. 
Sabe quando você não acredita que as coisas estão acontecendo? Eu me sentia assim. Em pouco tempo eu teria meu Artur nos braços através do parto que eu planejei. Tantos dias em pródromos, tantas ligações, tanto medo e incerteza. Aline dizia que estava quase. Renato também me pedia pra continuar. De repente eu olhei e a pediatra, Fernanda, estava lá sorrindo. Quando vi que ela estava sorrindo, relaxei porque eu sabia que estava tudo bem. A equipe inteira torcia, me dava força, me tratava com carinho. Eu estava rodeada de pessoas com o mesmo ideal que o meu e isso fez toda diferença. Eu já tinha perdido a noção da hora. Só queria fazer meu filho nascer. Consegui me concentrar e fazer a força necessária pra ele nascer. 
Às 21:07, alguém falou “nasceu!” e eu comecei a chorar. Não acreditava naquilo tudo. Imediatamente Artur foi pro meu colo. Todo lindo, chorava mansinho, tinha bochechas gostosíssimas e era todo vermelhinho. Eu beijei, abracei e chorei por trazer ao mundo mais um membro pra minha família, o irmão tão desejado por Caio, um bebê cheio de saúde e lindo. Meu pequeno mamou na primeira hora de vida, assim que nasceu. Marcos esperou o cordão parar de pulsar e Renato cortou. Era aniversário do meu marido. Melhor presente não poderia existir.  
Foi lindo, gente. Eu planejava um parto natural (sem nenhuma intervenção), mas eu não teria conseguido sem anestesia. Eu não estava preparada pra isso. Achei que estivesse, mas não estava. Além disso, eu estava exausta. Foram dias de contrações muito doloridas. Apesar da anestesia, eu fiquei em paz. Fiz tudo que eu pude. Cheguei ao meu limite. Dei tudo de mim. Fiz todo o esforço possível naquele momento. Tenho certeza de que trouxe meu filho ao mundo da melhor forma possível. Esperei ele dar sinal de que estava pronto pra nascer. Respeitei seu tempo. Ao nascer, Artur não foi aspirado nem colocaram colírio nele. A vitamina K foi aplicada porque eu autorizei. A pediatra me perguntou se podia aplicar. Tudo feito com muito respeito, com muito carinho. Então, não tem por que eu achar que não fiz tudo. Fiz e teria feito tudo novamente. 
Todo esse processo me fortaleceu como mãe, como mulher. Não me sinto mais mulher, isso é bobagem. Mas entrei numa luta necessária por todas as mulheres e bebês. Uma luta contra o sistema obstétrico que quer nos fazer engolir cesáreas desnecessárias nos fazendo acreditar que são a melhor opção. Não são! Que mais bebês nasçam de forma respeitosa! Que mais bebês não passem por intervenções  desnecessárias! Que mais bebês tenham sua hora de nascer respeitada! Que mais mulheres sejam protagonistas de seus partos! Que mais médicos saibam que não são eles os protagonistas! E viva o trabalho da doula!

Comentários

comments

16 comments
  1. Ainda não tinha lido seu relato de parto. Tão lindo….lindo como tem que ser e sofriiiiido como é para algumas, ahahahaha. Mas cara, ficar 4 dias (é isso mesmo?) em trabalho de parto é muita sacanagem, hahahahaha. Haja emoção.
    Lembro que no início da gravidez pensei em fazer um parto sem analgesia, mas depois de 1 única noite em claro em TP orei para que o momento em que eu pudesse tomá-la chegasse logo, hahahaha.
    Parabéns pela determinação e força de vontade pelo parto normal.
    O Arthur é lindo e fofo. Parabéns!!
    Beijocas

  2. Van

    Dany, eu demorei pra vir comentar porque eu queria reler o relato do seu parto com mais calma. Lindo! Eu tô deslumbrada… preciso Não, eu ainda não estou grávida, mas precisamos conversar 😉
    E o Artur é um bebê lindo, assim como o Caio é uma criança deslumbrante!!! Parabéns por ter conseguido realizar o seu desejo e parabéns pela família linda!!! Beijinhos

  3. Ivana Millán

    Uaaaauuu… eu só posso dizer, nesse momento: que coragem! Quero ter a mesma força, a mesma coragem, mas não tenho a mesma equipe… uma pena! 🙁 mas espero ainda firmemente ter um PN. Já estou com 27 semanas, Dany!! Bjocas em vc e no Artur.

  4. Viviane Pereira

    Ai que lindo, Dany! Só faço chorar agora com este seu relato! Com certeza você saiu mais fortalecida como mulher e o Renato, que paizão hein? O apoio do marido nessa hora é fundamental! Parabéns!!!! E as bochechas do Artur?? óin!!!

  5. Tatiane Garcia

    Dany, o que posso dizer, além de: Parabéns! ??? Você merece essa vitória. Lutou pelos seus ideais e conseguiu! Seu relato é humano e palpável. É crível. É sincero! Tenho certeza de que Artur ficará muito feliz quando conhecer essa história! Você mostrou que não é super-mulher nem super-mãe! Mas tem uma super coragem e determinação! Sobre a intervenção, maravilha! Acho que usou a ciência a seu favor! Se Helena vier de PN, pode apostar que farei uso de anestesia! Rs!
    Parabéns! Pra você e pra família toda! Diz pra Renato que ele foi um companheiro digno de orgulho alheio!
    Bjo! Tati

  6. Nine

    Lindo, Dany! Lindo! ´´E um momento mágico este do nascimento dos nossos filhos e se ele ainda vem recheado pela emoção de ter lutado muito e conseguido algo que desejava, nossa, é uma piração só! Vc foi maravilhosa, uma guerreira! Parabéns pelo nascimento do filhote, pelo VBAC! Beijos!

  7. Andressa Paiva

    Q coisa mais linda Dany, sempre t admirei como pessoa como mulher, e como profissional ( q foi como lhe conheci) Caio era o maior protagonista de sua vida, agora tbm haverá Arthur, para dividir a atenção. Achei lindo seu depoimento, mta garra e concentração, mas acima de td mto amor! Parabéns por sua atitude, sua força de vontade, e sim vc conseguiu! Foi até o seu limite…n te imagino chorando ou sentindo dor, pq conheci alguém que só sorria, nunca estava de mal humor, sempre delicada e feliz…e essa felicidade agora aumenta a cada dia com esse novo ser que vc trouxe, literalmente, ao mundo, espero poder conhecer Arthur logo…um abraço!

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