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Mães más

O pequeno compra seu lanche na cantina (último dia útil da semana é dia de cantina). Não compra bebida (ele não liga mesmo pra refrigerante e suco de caixinha). Sobra um real. Na saída da escola, ele decide comprar bala Halls. A mãe opõe-se. Ele insiste (aliás, essa é sua especialidade). A mãe cede. Tadinho. Afinal, o final de semana tá aí. Ela avisa: “Não abra a bala antes do almoço”. Tudo certo. Bala na mão é sinônimo de felicidade pro pequeno. No elevador, ele pensa que a mãe não está vendo.  Abre a bala e coloca na boca. A mãe finge que não vê. Em casa, o restante das balas está em cima da cama. A mãe pega e avisa que tudo irá pro lixo. Ela joga fora mesmo. Afinal de contas, nada de desobediência, né? Ele quase tem um ataque. Ela manda ele chorar na cama que é lugar quente. Sente-se um pouquinho culpada, fica com um dedinho de pena e se pergunta se não fez tempestade num copo d’água. Quer saber? A mãe está certa. E não tem nenhuma vergonha de ser uma mãe má.
Para refletir:
“Um dia, quando os meus filhos forem crescidos o suficiente para entenderem
a lógica que motiva um pai, eu hei de dizer-lhe: 
Eu amei-te o suficiente para ter perguntado: onde vais, com quem vais, e a
que horas regressas para casa.
Eu amei-te o suficiente para ter insistido que juntasses o teu dinheiro e
comprasses uma bicicleta para ti, mesmo que eu tenha tido condições de
comprar.

Eu amei-te o suficiente para ter ficado em silêncio e deixar-te
descobrir que o teu novo amigo não era boa companhia.
E amei-te o suficiente para te fazer pagar a pastilha que tiraste da
mercearia, e dizeres ao senhor: “Eu roubei isto ontem e queria
pagar”.

Eu amei-te o suficiente para ter ficado em pé, junto de ti 2 horas,
enquanto limpavas o teu quarto; tarefa que eu teria realizado em 15
minutos.
Eu amei-te o suficiente para te deixar ver fúria, desapontamento e lágrimas
nos meus olhos.

Eu amei-te o suficiente para te deixar assumir a responsabilidade das tuas
ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração.
Mais do que tudo, eu amei-te o suficiente para te dizer não, quando eu
sabia que me irias odiar por isso. Essas eram as mais difíceis batalhas
de todas.
Estou contente, venci, porque no final vocês venceram também. E qualquer
dia quando os vossos filhos forem crescidos o suficiente para entenderem a
lógica que motiva os pais, tu vais-lhes dizer quando eles te perguntarem
se a tua mãe era má. Diga-lhes que sim, era má, era a mãe mais má do mundo.
Os outros miúdos comiam doces ao pequeno almoço; nós tínhamos de
comer cereais, ovos, torradas.
Os outros miúdos ao almoço bebiam Pepsi e comiam batatas fritas, nós tínhamos
de comer sopa, verdura e fruta.
E, não vais acreditar a nossa mãe obrigava-nos a jantar à mesa, bem
diferente das outras mães também.
A nossa mãe insistia em saber onde nós estávamos a todas as horas. Era
quase uma prisão.
Ela tinha de saber quem eram os nossos amigos e o que nós fazíamos com
eles.
Ela insistia que lhe disséssemos que íamos sair por uma hora, mesmo que
demorássemos só uma hora ou menos.
Nós tínhamos vergonha de admitir, mas ela violou as leis de trabalho
infantil. Nós tínhamos de lavar a louça, fazer as camas, lavar a roupa,
aprender a cozinhar, aspirar o chão, esvaziar o lixo e todo o tipo de
trabalhos cruéis. Eu acho que ela nem dormia à noite a pensar em coisas
para nos mandar fazer.
Ela insistia sempre conosco para lhe dizermos a verdade e apenas a
verdade. Na altura em que éramos adolescentes, ela conseguia ler os nossos
pensamentos. A nossa vida era mesmo chata.
Nossa mãe não deixava os nossos amigos tocarem a buzina para nós
descermos. Tinham de subir, bater à porta para ela os conhecer.
Enquanto toda a gente podia sair à noite com 12, 13 anos, nós tivemos de
esperar pelos 16.
Por causa da nossa mãe, nós perdemos imensas experiências da adolescência.
Nenhum de nós esteve envolvido em roubos, atos de
vandalismo, violação de propriedade nem fomos presos por nenhum crime.
Foi tudo por causa dela.
Agora que já saímos de casa, nós somos adultos, honestos e educados,
estamos fazendo o nosso melhor, para sermos maus pais, tal como a nossa mãe
foi.”

Eu acho que este é um dos males do mundo de hoje: não há mães
suficientemente más.

Comentários

comments

8 comments
  1. Tatiane Garcia

    E dá-lhe mamãe má!!!! rssss…falta muita mãe má nesse mundo! E se o problema fosse uma balinha antes do almoço, tava beleza. A coisa vai muuuuuiiiito mais fundo!!!!!

  2. Mãe ComCiência

    Menina, eu adoro esse texto, fiz até uma adaptaçãozinha no meu perfil… rsrs. Quando eu o li pela primeira vez lá pela adolescência, nossa, eu pensei logo "é minha mãe toda" e acho que passei a dar mais valor a tudo o que ela fez por mim pq sem dúvida ela foi má o suficiente e hoje a agradeço. Quero ser má o suficiente, tanto quanto ela foi, para minha filha. Obrigada pela lembrança. Ler esse texto é sempre animador. Beijos! Bom feriado.

  3. Andrea

    mais do que certa, certíssima! Por isso que minha filha, desde os 3 anos, me diz "você é chata, só me diz coisa chata!" e eu respondo: sou chata porque sou sua mãe e te amo, te ensino o certo!" Adoro esse texto, já postei lá no meu blog.
    bjs
    andrea, mamãe da manu e da mari
    manias de ser mãe.blogspot

  4. Karen

    Nossa, me identifiquei demais com o seu post hoje! Acabei de ser uma mae má com minha filha mais velha e estou aqui me sentino mal… Mas também achei que tinha que ser consequente com aquilo que eu tinha lhe dito anteriormente e falei nao quando ela me pediu para assistir mais um desenho…

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